Qual a Forma correta de traduzir João 1:1?
Existe algumas versões para o texto de João 1:1, as mais populares são:
“No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (Versão Almeida)
“O Logos [ou o Verbo] era divino.” (A New Translation of the Bible) “O Verbo era deus.” (The New Testament in an Improved Version)
“O Verbo estava com Deus e era da mesma natureza que ele.” (The Translator’s New Testament)
No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era [um] deus.(Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas).
Para entendermos porque existem essas diferenças de traduções, devemos recorrer à gramática grega, grego coiné ou grego comum, o idioma em que todo o novo testamento foi escrito e no qual suas versões mais antigas estão disponíveis para nos hoje.
Em João 1:1 ocorre duas vezes o substantivo grego the·ós (deus). A primeira ocorrência se refere ao Deus Todo-poderoso, ou seja, o Pai, com quem a Palavra estava (“e a Palavra [lógos] estava com Deus [uma forma de theós]”). Este primeiro theós é precedido pela palavra ton (o), uma forma do artigo definido grego que aponta para uma identidade distinta, neste caso o Deus Todo-poderoso (“e a Palavra estava com o Deus”).
Por outro lado, não existe artigo antes do segundo theós, em João 1:1. Assim, uma tradução literal seria “e deus era a Palavra”.
Mas muitas versões a traduzem de modo diferente da mais conhecida e não fazem uma tradução literal, porque fazem isso?
Essas traduções usam palavras tais como “um deus”, “divino” ou “semelhante a Deus” porque a palavra grega θεός (the·ós) é um substantivo predicativo no singular, ocorrendo antes do verbo e sem ser precedido pelo artigo definido. Trata-se dum the·ós anartro (substantivo sem artigo). O Deus com quem a Palavra ou o Logos estava originalmente é designado aqui pela expressão grega ‛ο θεός, isto é, the·ós precedido pelo artigo definido ho. Trata-se dum the·ós articular. A construção articular do substantivo indica uma identidade, uma personalidade, ao passo que um substantivo predicativo anartro no singular, precedendo ao verbo, indica o atributo ou o predicado de alguém. Portanto, a declaração de João, de que a Palavra ou o Logos era “[um] deus”, “divino” ou “semelhante a Deus” não significa que era o Deus com quem estava. Apenas expressa certo atributo da Palavra ou do Logos, mas não o identifica como o próprio Deus.
Portanto, a segunda ocorrência da palavra deus não esta sendo usada para identificar a palavra como sendo propriamente Deus, mas sim dando um atributo ou qualidade de deus.
Mas ainda resta um questão, ao passo que identificamos que a palavra deus na sua segunda ocorrência da atributos e não identifica a palavra, o artigo indefinido (um) não é encontrado na grego original coiné, porque então algumas traduções a colocam ali?
A língua grega coiné tinha artigo definido (“o”), mas não tinha artigo indefinido (“um”). Assim, quando um substantivo predicativo não é precedido por artigo definido, pode ser indefinido, dependendo do contexto.
Podemos observar isso em outros exemplos onde o artigo indefinido “um” foi inserido para dar o real significado do texto:
Atos 28:6 – E eles esperavam que viesse a inchar ou a cair morto de repente; mas tendo esperado já muito, e vendo que nenhum incômodo lhe sobrevinha, mudando de parecer, diziam que era um deus.
Notamos que em atos 28:6 o artigo indefinido UM não se encontra no orignal, nem poderia, pois como falado o artigo indefinido UM não existe no grego coiné, mas foi inserido antes da palavra deus para dar o real significado do texto, pois no relato os moradores da ilha não estavam identificando o apostolo como sendo Deus, mas sim o QUALIFICANDO como sendo um, devido a não ocorrência da sua morte quando foi mordido por uma cobra venenosa.
Outros exemplos em que os tradutores bíblicos inseriram o artigo indefinido “um” em textos para dar o real significado do texto são facilmente encontrados.
Conclusões:
Concluímos então que inserir o artigo indefinido “um” em textos para dar o real significado dele não quebra nenhuma regra de gramática ou de tradução, mostramos com exemplos práticos que realmente quando o contexto exige o tradutor se vê obrigado a inserir.
Também concluímos que traduzir João 1:1 para “e o Verbo era Deus” leva o leitor leigo ao erro, pois em grego o sentido do texto é qualitativo e não esta sendo usado para identificar o verbo como a tradução mais conhecida faz, sendo assim qualquer tradução que corrige esse erro e faz uma tradução que qualifica o verbo é a mais correta, como “um deus” já usado em outros textos.